[Jornalismo/ escrita] Crítica de cinema: Amor

Crítica de cinema publicada no website Belô Artes, em 2012.

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Amor (Amour, 2012)

Elenco:  Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, William Shimell. Direção: Michael Haneke. Roteiro: Michael Haneke. Gênero: Drama. Duração:  2h 7min. Distribuidora:  Imovision. Classificação: 14 anos

Nota: 5/5

Em pleno século XXI, em 2012, após 117 anos de cinema, um filme ousa se chamar Amor (Amour). Depois de tantos séculos de narrativas voltadas para um dos nossos sentimentos mais polêmicos e também mais louvados, que tem atraído ouvintes e leitores ávidos e espectadores emocionados, que permeia nosso imaginário, construiu a base para muitas das nossas relações e constitui parte da nossa organização social. Após tudo isso, um filme surge chamando-se Amor. E não poderia ter nome melhor.

Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), um casal francês aposentado, com cerca de oitenta anos de idade, encontram dificuldades quando Anne sofre um derrame e, posteriormente, sua saúde vai se deteriorando. A narrativa – e a câmera – acompanham principalmente os dois personagens principais e o apartamento em que vivem, percorrendo todos os cômodos, mas nada além deles (o único vislumbre do “mundo lá fora” que temos é no início do filme, quando os dois vão a um concerto de piano, e, no entanto, vemos apenas a plateia em que se encontram e não o palco). Alguns personagens vêm e vão do apartamento, como alguns vizinhos, duas enfermeiras, um ex-aluno de música e a filha do casal, que vive no exterior. No entanto, na maior parte do tempo, somos deixados pelos cômodos da casa, acompanhando ou um ou o outro – ou nenhum – em seus momentos cotidianos.

Bem longe da glorificação, da idealização e do lugar-comum que têm acompanhado o amor no cinema – principalmente no de grande público e das grandes premiações, o Amor de Michael Haneke (A Fita Branca, 2009, Violência Gratuita, 2007, Caché, 2005), redefine e reconstrói, em forma e conteúdo, um dos temas preferidos das narrativas cinematográficas. Não mais a grandeza dos dramas e das aventuras amorosas, ou a leveza das comédias românticas, nem grandes reviravoltas, conflitos ou diálogos. Ao contrário, é o cotidiano em sua forma mais crua, lenta e incomoda que faz de Amor um dos maiores filmes sobre o amor. Sobre o que ele é naqueles pequenos momentos que poucos consideram importante mostrar, nas pequenas grandes atitudes que, de fato, constroem um relacionamento. Nos momentos pós-felizes-para-sempre que as narrativas gostam de ignorar. Nas dificuldades cotidianas, nas horas mornas, nos anos envelhecidos, nos silêncios, no arrastar dos minutos. Na doença, mas não aquela das grandes crises, nem os momentos de choque, luto e choro que costumam povoar o cinema com suas explosões e subsequentes apaziguamentos; mas o dia-a-dia da doença, o decorrer do deterioramento, a temida, mas ansiada, espera da morte.

Se o filme é lento e incômodo e pode desagradar os que buscam um cinema de mais fácil digestão, é porque somente desta forma somos capazes de nos aproximarmos – ainda que muito minimamente – do sofrimento que se desenrola nos dias lentos do casal, mas também dos momentos de carinho, apoio e, por vezes, escape. E, só acompanhando esse lento desenrolar do seu cotidiano, podemos nos aproximar daqueles personagens que tão de perto nos são mostrados, através das incríveis interpretações de Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Não só em suas fraquezas e problemas, mas nos pequenos movimentos de superação que conseguem desenhar frente às adversidades. Nas escolhas que tomam um pelo outro, nas palavras e nos gestos, nos toques, nos desentendimentos e também nos silêncios que compartilham, e que, sem nenhuma referência a essa palavra usada tão exaustivamente em vários filmes, constroem – talvez mais perfeitamente do que em qualquer outra narrativa – o que significa o amor.

 

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