[Jornalismo/ escrita] Crítica de cinema: Entre os muros da escola

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Crítica de cinema publicada no website Ovo de Fantasma, em 2014. Disponível aqui.

Cineclube Ovo de Fantasma: Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, 2008)

Entre os muros da escola pode ser visto de formas muito diferentes, particularmente duas, completamente opostas. De um olhar eurocêntrico – que aqui não pretendo apresentar como “inferior”, mas talvez mais limitado – o que acompanhamos é uma luta diária, cansativa, por vezes quase desesperançosa, de um professor, entre tantos, em uma escola pública na França. Tal professor (de francês, algo marcante para a segunda interpretação) lida com um grupo de alunos, formado por imigrantes de diferentes países, que apresenta as mais diversas resistências e formas de indisciplina.

Outro olhar, que talvez se apoie mais no incômodo das tremidas da câmera do que na sua proximidade dos corpos e histórias que por ela passam, se baseia em um distanciamento e questionamento das relações que ali se estabelecem ou deveriam se estabelecer. Para além de uma identificação com o personagem europeu e de autoridade, com seus valores modernos e seu olhar colonial, é possível enxergar conflitos maiores do que os estabelecidos entre aqueles muros. O título em francês, Entre Les Murs – inexplicavelmente perdido na tradução para o inglês The Class, mas que felizmente se mantém no português Entre os Muros da Escola –, nos remete aos muros que guardam as instituições disciplinares de que nos fala Michel Foucault: instituições arquitetadas para vigiar, punir e docilizar os corpos. E se tais dispositivos de poder já se mostram problemáticos atualmente na cultura ocidental, onde surgiram no século XVIII, o que se dirá de seus conflitos diante de outros povos? E o que dizem de outras quebras de muros, como a imigração em peso de ex-colônias para dentro das fronteiras dos colonizadores?

O que pode ser visto como a batalha pessoal do professor François Marin (interpretado por François Bégaudeau, autor do livro no qual o filme é baseado), pode ser visto também a partir dos problemas individuais dos estudantes, seus questionamentos e suas dificuldades em lidar com a relação de poder que lhes é imposta. Mas, para além disto, o filme suscita questões mais complexas, começando pelo ensino inflexível de uma língua que não quer se adaptar aos falantes e às mudanças do tempo (os alunos questionam o aprendizado do imperfeito do subjuntivo, sendo que este não é mais utilizado pelos falantes franceses, bem como a proibição do uso de gírias na escola). Ademais, as regras rígidas da disciplinarização escolar e as relações hierarquizadas e, por vezes, opressoras e tolhedoras, em um espaço que se parece mais com outras instituições produtoras de corpos dóceis do que talvez deveria (como a prisão e o hospício); mostram suas falhas e pedem urgente revisão.

O denominador comum entre os diferentes olhares e que o filme constrói muito bem é a noção de que, apesar da hierarquia rígida estabelecida e dos valores inquestionáveis que são impostos verticalmente entre os muros da escola, os embates diários criam um espaço em que o aprendizado se constrói de forma difícil, mas, talvez por isso, acaba por se tornar mútuo. Quem ensina, na frente da sala, em uma posição de saber – e, portanto, poder -, dominador da língua em que se estabelecem as relações, responsável por disciplinar e punir; por fim, também é colocado em uma posição de baque e questionamento e se encontra, finalmente, em uma posição de aprendizado. E nós, que temos uma experiência bem menos sofrida com o filme, já que é muito fácil se prender ao seu enredo e personagens, ainda assim também saímos baqueados pela experiência e provavelmente dispostos a nos propor certas questões.

 

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