[Jornalismo/ escrita] Era uma vez em Belo Horizonte…

Texto produzido para o jornal Outro Sentido, da Universidade Federal de Minas Gerais, em 2012.

Era uma vez, em Belo Horizonte…

Estudantes que pichavam a faculdade com palavras contra a ditatura, corriam da polícia e acreditavam em um mundo melhor. Com exceção – talvez – da última parte, tudo isso parece bem distante da realidade da Fafich de hoje.

 

Pelos corredores, pés sujos metidos em sandálias e unhas com restos de tinta percorriam aquele prédio antigo, onde as paredes continham palavras de ordem: as famosas “Abaixo a ditadura” e outras intervenções políticas de uma geração que contribuiu para a redemocratização do país. Ali, estudantes barbudos, roupas largas e coloridas, debates políticos, reuniões, projetos clandestinos e utopias – estas últimas muitas vezes brigando entre si, “badalavam” a Rua Carangola, número 288.

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Essa Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, a da jornalista e ex-faficheira Clara Arreguy, está a cerca de dez quilômetros e há mais de duas décadas da nossa. O prédio, no bairro Santo Antônio, conserva praticamente a mesma aparência dos anos de faculdade e guarda muitas das lembranças dos estudantes que passaram por lá, antes de a Fafich ser transferida para o Campus Pampulha, em 1990.

“Ser faficheiro pra mim era sinônimo de liberdade, rebeldia, novas ideias, num tempo em que era ousado ser diferente. Faficheiro arriscava a própria pele para falar durante a censura, se manifestar diante das arbitrariedades, agir com criatividade quando a ditadura cerceava as formas tradicionais de fazer política”, afirma Clara. Autora do livro “Fafich”, parte da coleção BH – A cidade de cada um, da Conceito Editorial, ela narra, ao longo das setenta e cinco páginas, a sua passagem pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, narrativa que reflete a experiência de toda uma geração.

“A experiência de ser faficheiro – termo que já foi pejorativo, hoje assumido até com orgulho por um bando de quarentões e cinquentões – consistia em muito mais do que estudar na Fafich”, começa o livro, lançado em 2005.

Para a jornalista Maria Cristina Souza, que, como Clara, também entrou para a categoria dos faficheiros em 1978, a primeira impressão foi de uma “explosão de liberdade”. “A Fafich respirava conhecimento. O acesso aos grandes pensadores era na Fafich algo impensado nas demais áreas da UFMG e muito menos na educação secundária”.

Para as duas, esse foi um dos principais motivos porque a faculdade era o foco dos movimentos contra a ditadura. E, claro, também por causa do caráter crítico do curso de Comunicação Social e da profissão jornalística. “Estudar jornalismo nos treinava para uma leitura crítica da mídia e da produção de informação, sem falar no exercício da escrita e da expressão”, diz Clara.

Clara participou ativamente dos movimentos estudantis, da diretoria do DA, o Diretório Acadêmico da Fafich, das eleições para o DCE-UFMG e para a UNE, de manifestações, encontro de estudantes e até de uma organização clandestina, onde chegou a “mudar” seu nome para Inês. Além disso, fazia parte do Tref, o Teatro de Resistência dos Estudantes da Federal, que criticava os problemas do país de forma inteligente e engraçada. “Foi um aprendizado inesquecível. Éramos idealistas e ingênuos em muitos aspectos, mas corajosos e belos, em outros. Posso até rir de muito do que fizemos, mas nunca com vergonha. Sempre com orgulho por ter, de alguma maneira, feito uma partezinha no processo de reconstrução da democracia no país”.

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Para Maria Cristina, que também atuou no DA e DCE, participando de concentrações, debates, manifestações e até correndo da polícia, o aprendizado que teve na Fafich naquele momento a fez a pessoa que é hoje, “engajada politicamente, militante do movimento sindical e definida politicamente. Naquele tempo escolhi um lado e estou desse lado até hoje”.

Clara Arreguy termina seu livro se perguntando: “Será que faficheiro não existe mais? Ou viraram todos quarentões e cinquentões nostálgicos, fantasmas à procura de um passado que só existe na memória?”.

Provavelmente é melhor retirar o “ex” de “ex-faficheira”, colocado no início da matéria, ao tratarmos de Clara. Difícil dizer quanto aos estudantes atuais de Comunicação Social e do resto da faculdade, mas muitos daqueles da geração de Clara e Maria Cristina talvez nunca deixem de ser faficheiros.

 

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