[Jornalismo / escrita] Photoshop: vale?

Matéria jornalística produzida para publicação interna na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2010.

Photoshop: vale?

O programa que a maioria dos publicitários não vive sem e que tem invadido as fotos de família, está conquistando também seu lugar na arte. Mas e aí? Edição digital em trabalhos artísticos, pode ou não pode?

Gabriel Wickbold é um dos muitos fotógrafos que usam e abusam do Photoshop e não têm problema nenhum em admitir. Aos 25 anos, o paulista vem ganhando cada vez mais visibilidade, principalmente com seu novo ensaio, “Sexual Color”, que mistura cores vibrantes, poses sensuais e algumas celebridades, como Fernanda Paes Leme e Adriane Galisteu. Na série, vibrante e impactante, homens e mulheres, famosos ou anônimos, tiveram seus corpos pintados de diversas cores e fotografados por Wickbold. A idéia, as poses e as cores em si, além dos ângulos e iluminação, já chamam muita atenção por si só, mas o toque digital confere algo a mais às fotos do artista, construindo um estilo muito particular, também presente em seus outros trabalhos. “Eu utilizo bastante o Photoshop para manipulação de cores, brilho e contraste”, afirma Wickbold. “O Photoshop, junto com a fotografia digital, aceleraram muito o processo dentro do estúdio. Eu sou um fotógrafo dessa geração digital.”

gabriel1Mas não é somente entre profissionais que o Photoshop faz sucesso. Muitas pessoas, em especial jovens, já sabem usar suas ferramentas básicas e as utilizam para editar fotos suas ou de seus amigos e familiares. Para a nova geração, o Photoshop é tão famoso e conhecido como outras novidades digitais, tais como os sites de relacionamentos e programas para download de músicas. Mas para quem não está por dentro das novas tecnologias, aqui vai uma breve apresentação desta tão utilizada ferramenta: O Photoshop é um programa de edição de imagens bidimensionais, lançado em 1990. Atualmente, é considerado líder no mercado dos editores de imagem profissionais, chegando até mesmo a ser usado como sinônimo de manipulação digital de fotografias.

Mas nem todo mundo está satisfeito com a festa das edições digitais. O uso de Photoshop e outros programas já é tão comum em trabalhos publicitários e em algumas revistas que o uso raramente gera alguma discussão. No entanto, no âmbito da arte, a história parece ser outra. Ainda que cada vez mais artistas se rendam às possibilidades do Photoshop (mesmo que nem todos admitam), o tratamento digital ainda gera muita polêmica na área. Segundo o professor de Comunicação Social da UFMG, André Brasil, quando uma nova tecnologia surge, ela tende a gerar discussão. Isso, de acordo com ele, é uma questão histórica, ligada muitas vezes à tecnofobia. “É como se a técnica ameaçasse o humanismo, ameaçasse o gesto do artista”.

photoshop
Revistas de moda e comportamento, bem como as destinadas ao público masculino, não abrem mão do Photoshop.

E, ao contrário do que se pensa, também há muitos jovens que não gostam muito do programa. Gabriela de Sá, de 22 anos, é estudante de Comunicação Social da UFMG e se matricula em disciplinas de fotografia na Escola de Belas Artes da universidade sempre que pode. Amante da oitava arte, como é considerada por muitos a fotografia, Gabriela não é apreciadora do uso do Photoshop para alguns tipos de manipulação, como da iluminação, por exemplo. “Isso é algo que o fotógrafo deve ser capaz de medir na hora de tirar a foto e não simplesmente ‘consertar’ depois… Acho que a capacidade do fotógrafo se mede no momento em que ele tira a foto e não na hora em que a manipula com ajuda de programas na pós-produção”. Ela lembra que muitos fotógrafos faziam no laboratório de revelação muitas das coisas que hoje se faz digitalmente, mas para ela o processo manual é muito mais interessante, ainda que o Photoshop traga facilidades e maior rapidez. “No laboratório, o que você faz, foi você mesmo que fez, por mais que use técnicas que sejam conhecidas… É bem mais interessante pensar que você fez aquilo com suas próprias mãos, ao invés de clicar em um botão com uma ação prevista e que, se a gente for ver, todo mundo usa igual”.

O professor André Brasil também admite que não tende a gostar da utilização do programa em trabalhos artísticos, mas afirma que tudo depende da utilização que o artista faz do Photoshop. “Tem vários artistas que o utilizam bem em sua poética, é preciso analisar cada trabalho separadamente. O fato de utilizar ou não o Photoshop não define a obra”. E ele alerta que as posições extremas costumam ser problemáticas: “Tanto o discurso de adesão como o de negação tende a ser determinista”.

Um exemplo de um artista que não se encaixa nos discursos extremistas parece ser o historiador e fotógrafo mineiro Marcelo Pinheiro. Ele utiliza o Photoshop há cerca de cinco anos, mas usa apenas seus recursos e ferramentas mais básicos, e destaca pontos positivos e negativos do programa: “A vantagem principal é a facilidade de se conseguir uma fotografia perfeita. A desvantagem é que todas as fotos ficam perfeitas e, por isso mesmo, vulgares”, afirma. “As fotos não têm mais um toque peculiar, um defeito expressivo ou um traço personalístico. Tudo é pasteurizado pelo Photoshop que resolve todos os problemas”. Além disso, na opinião dele, o Photoshop trouxe uma grande economia de tempo e dinheiro, com a garantia de um resultado perfeito, mas o aprendizado do processo fotográfico ficou comprometido.

Olhares Peculiares

marcelo pinheiro
Foto de Ouro Preto, por Marcelo Pinheiro

Polêmicas à parte, e com Photoshop ou não, os trabalhos de Wickbold e Marcelo Pinheiro merecem ser conferidos. Além de “Sexual Color”, Gabriel possui também trabalhos ligados à publicidade e à moda, mas sua primeira série foi documental e é talvez a mais interessante. “Brasileiros” é o resultado de uma viagem de 10.000 quilômetros pelo Brasil, feita de carro. Minas Gerais foi, segundo ele, um dos Estados que mais o surpreendeu: “Tem um povo muito vivido, com uma pele viva, um olhar interessante, e a luz de Minas é incrível”. E quando se trata do seu Estado natal, Marcelo Pinheiro é especialista. Em seu portfólio são várias as fotografias de cidades mineiras, entre elas, Ouro Preto, Diamantina e, claro, Belo Horizonte. Da capital, destacam-se as fotos aéreas de toda a cidade, além da sessão de fotojornalismo, com imagens utilizadas em vários jornais do Estado e do país.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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